Espiritualidade

Criar a paz no próprio coração

14/08/2011 15:29

A primeira coisa que se pode constatar é que a paz é um desejo profundo do coração. E isto, por um duplo motivo: porque para ela tendemos, a partir das próprias raízes de nosso ser; e porque corremos para alcançá-la, ao percebermos que a paz sintetiza e engloba o que intuímos como nossa felicidade.
Desde o profundo de sua existência, nosso ser pede existir na paz. É seu modo próprio de ser e existir na verdade e no amor. Seu fundamento está no ser de Deus, que existe e é, na Paz.
Enquanto existimos, ela se manifesta como promessa, no horizonte de nossa consciência, e nos atrai como o bem mais precioso. Não descansamos enquanto não conseguimos alcançá-la. Porém, ainda que real, uma vez alcançada, ela nos é frágil e precária; nesta vida, só Deus no-la pode dar e manter, porque Ele mesmo é a Paz (Ef 2,14; 1 Ts 5, 23).
Segundo São Paulo, a paz do coração é fruto do Espírito Santo: ¨Os frutos do Espírito são: amor, alegria, paz…¨ (Gl 5, 22). É dom de Deus a nossos corações, mas também fruto de nossa colaboração. Trata-se do resultado da graça em nós, mas também do compromisso responsável e amoroso de nossa liberdade que respondeu e responde positivamente a Deus, na trama diária de nosso viver monástico. Como indica o Apóstolo, esta é a maneira própria de ser do homem novo, daquele que se deixa guiar pelo Espírito Santo e que se contrapõe ao homem carnal que gera frutos de morte (Rm 8, 3-13).
 A paz de Deus é fruto da comunhão. Sua presença em um coração é sinal de que nele existem o amor e a união interpessoal. Por isso ela se converte em um sinal privilegiado da capacidade que esse coração tem para discernir.
Como sempre, devemos buscar a paz em nossas relações com Deus, com o próximo e conosco mesmos. Sabemos que cada um desses âmbitos são intercomunicáveis. Isto é, há verdadeira paz quando ela está presente nos três, ainda que, ao olhar de nossa consciência, em determinado momento, predomine um ou outro. Toda a pessoa é que alcança ou não a paz.
Proponho-lhes centrar nossa reflexão sobre dois aspectos fundamentais da comunhão: a reconciliação e o crescimento. Monasticamente falando, ambos esses processos supõem o amor, e mais concretamente, uma “descentralização” da pessoa, como conseqüência da descoberta pessoal que fazemos de Cristo e seu chamado. Isto é, a conversão e o seguimento monásticos.
Abraçar a vida monástica implica deixar Deus entrar, com a ação de seu Espírito, no mais profundo de nossa existência. Isto é, como ensina São Paulo, deixar-nos reconciliar com Deus, reconhecendo nossa miséria e confessando sua misericórdia (Cf. 2 Cor 5, 20-22). Um resultado disto, que nos restaura e insere radicalmente na comunhão com Deus, com o próximo e conosco mesmos (Cf. Rm 5,1.9.11), é que gradativamente fazemos a experiência de um Deus diferente do que conhecemos a partir de nossas necessidades, interesses, desejos e, inclusive ideais pessoais de perfeição.
Pouco a pouco, vamos descobrindo e fazendo nossa, uma imagem de Deus mais pura e verdadeira que, gradualmente assimilada, vai assumindo e centrando toda nossa personalidade e existência. Começamos a viver conforme os “planos” de Deus para nós, em vez de viver os nossos planos para com Deus. Nossa mente deixa de estar centrada no que “eu sinto”, “eu penso”, “eu quero”, “eu faço”, “eu sofro...” mas no projeto que dá sentido à minha vida, naquilo que compartilho com meus irmãos e irmãs, e naquilo que é construído a partir de uma busca sincera e ativa da vontade de Deus. Em outras palavras, começamos a viver para Deus, nas obras de Deus, no próximo e em nós mesmos.
Todavia, como diz o salmo: pecador me concebeu minha mãe, e também: reconheço meu delito, meu pecado está sempre diante de mim (Sl 51,7.5). Somos pecadores e necessitamos do perdão. Necessitamos que Deus e o próximo nos perdoem e necessitamos também que nós mesmos saibamos nos perdoar, a fim de alcançarmos a paz e sermos capazes de perdoar.
A paz se baseia na verdade e na justiça, delas se nutre, e sem elas não há paz. O N.T. nos apresenta a paz como reconciliação universal por meio de Cristo. Reconciliar-se é “fazer as pazes” com outra pessoa; ou seja, reconhecer a verdade de nosso erro ou nossa falta para com os demais, pedir perdão, porque verdadeiramente ofendemos ou prejudicamos. E ainda: mudar nossa maneira de pensar, e comportar-nos diante da pessoa ofendida, dando início a um relacionamento novo de abertura, doação, encontro... comunhão. Deste modo, a paz termina apoiando-se na liberdade e no amor.
Por isso, o perdão, no cristão, supera a ética: faz-nos encontrar-nos com Deus. Por isso, a “vida nova” do monge ou da monja está sempre envolvida no perdão de Deus e de seus irmãos e irmãs. Por isso, a reconciliação, especialmente a que recebemos de Deus, põe fim a uma situação desgraçada, onde certamente é impossível que a verdadeira paz floresça.
Ao contrário, graças ao fato de que ela nos restabelece como filhos e irmãos, reinserindo-nos na comunhão, a paz nasce como flor delicada no coração. Por isso, ela pede que uma vez alcançada esse perdão e essa reconciliação sejam capazes, em nós, de manifestar-se em nossa vida. Isto significa tornar-nos efetivamente pessoas capazes de perdoar, desde o mais íntimo de nós mesmos, numa dinâmica de perdão e reconciliação permanente na comunidade. Porque, como nos indica o Pai-nosso, os frutos do perdão recebido têm que manifestar-se na vida, ou seja, uma vida no perdão, entre irmãos (Mt 6,15). Não há espaço para o ódio e o rancor, ainda que muitas vezes o caminho seja longo e doloroso. Não deveríamos nos esquecer de que nosso perdão é sempre o de perdoados; ninguém é justo.
Mas a reconciliação com sua paz não é tudo; é preciso crescer no amor. Esta é nossa vocação. Só o crescimento no amor nos dá a verdadeira paz, aquela que sabemos vir de Deus e que é capaz de nos fazer estáveis Ele, mesmo no meio dos sofrimentos e peripécias que inevitavelmente curtimos na vida.
Parece-me que o crescimento do amor em nossa vida esteja, fundamentalmente, na passagem de um amor “possessivo” para um amor “oblativo”. Graças a essa nova imagem de Deus que descobrimos e que assimilamos, começamos a viver para Deus e para o próximo. Descobrimos experimentalmente que Deus nos ama assim. Experimentamos, de quando em quando, no coração, o impulso do Espírito para amar assim. E animamo-nos, a princípio timidamente, a amar assim, e experimentamos a riqueza, o gozo e a paz de amar assim. Isto amadurece nossa personalidade e é fonte profunda de paz.
Se olharmos a Trindade, vemos que tudo nela é amor: doação plena das Pessoas entre si. Se olharmos o Cristo, tanto em sua vida como em sua morte, é puro dom de si para os demais. Se olharmos a tradição cristã, da qual nos tempos atuais temos tido singulares exemplos de homens e mulheres construtores da paz, notamos que a constante neles é o dom de si mesmos. Doando-se, o monge ou a monja se encontra (Mc 8,34-37); a paz profunda do coração se encontra nisto, neste reconhecermo-nos efetivamente para os outros, fazendo nosso, naquilo que mais pudermos, o que a pessoa e os planos que Jesus tem para nós. A paz do coração, que brota deste seguimento radical de Jesus, nos revela também quem Ele é. Com nossa inteligência podemos conhecer muito acerca de Deus, de Jesus, de seu Mistério, e tudo isso é muito bom. Entretanto, não deixa de ser um conhecimento superficial, como que exterior à pessoa de Jesus, porque não nos revela sua verdadeira interioridade. Somente conhecemos verdadeiramente as pessoas, quando temos acesso a sua consciência, a seu ser interior. Pois bem, só o amor feito seguimento de Jesus, é que nos abre a porta à sua intimidade, nos faz saborear (“saber”) – diria S. Bernardo – quem Ele é, e isto sacia em parte a sede que d’Ele temos, dando-nos a experiência de sua paz. Por isso, colocar nossos passos no caminho da paz é essencialmente amor de comunhão.

São João Gualberto

Fundador do Mosteiro de Valombrosa - Itália